O bolo de iogurte

 

Um bolo simples, de execução fácil e um sabor que não se explica. O primeiro bolo que todos aprendemos a fazer, em que a única medida a ter em conta é a do iogurte.

Nunca fui rapariga de pão-de-ló (só o de Ovar ou Alfazeirão) – acho um bolo muito seco, muito fofo e sem piada. Mesmo recheado continua a não ser o bolo pelo qual morra de amores – e então desde que descobri o bolo-esponja (Victorian Sponhe Cake) e o Chiffon, nunca mais me apanham a comer pão de ló.
Curioso que os meus bolos de aniversário acabavam sempre por ser um pão-de-ló recheado e coberto com chocolate, feito pela minha mãe, e decorado com pintarolas – à mesma seco, fofo e sem piada, mas um bolo de anos feito com muito amor – e com 3 dálmatas por cima (que eram a única bonecada para pôr em bolos que tinha cá por casa), o que dava logo muito mais piada ao dito.
Acho que não há ninguém que nunca tenha feito ou não conheça o bolo de iogurte! É o mais simples de aprender e que não precisa de pesagens ou medidas que não sejam o copo do iogurte. Posso comprovar que é mesmo um clássico porque é das primeiras receitas que está escrita neste livro de receitas da minha mãe.
Lembro-me de ser pequena e medir o açúcar no copito, e com as mãos desajeitadas lá o despejar para uma taça vermelha. O resto ficava a cargo da minha mãe até que o bolo fosse para o forno – depois era a eterna discussão entre mim e a minha irmã para ver quem é que rapava mais massa da taça.

 

 

Quando era criança ficava feliz por haver bolo, porque gostava do ritual de medir certos ingredientes, das brigas com a minha irmã a ver quem ficava com mais massa, de esperar que a minha mãe estivesse desatenta e tirar uma colherada enorme de massa crua e comê-la à pressa. E depois a espera, que o bolo arrefecesse, depois de polvilhado com açúcar.
A longa espera que terminava com fatias ainda mornas de bolo – diz que faz mal à barriga, mas acho que essa é a maior mentira que se diz às crianças,  – que cá eu comi fatias mornas e por vezes quentes de bolo e ainda cá estou (a fazer exactamente o mesmo).

 

Ainda hoje nada me deixa mais feliz, mais relaxada, mais tranquila do que fazer um bolo. E quero que também sejam felizes, por isso, deixo-vos a receita do bolo mais simples de sempre, aquele que me transporta para uma infância feliz e recheada de coisas boas (e bolos, e a lembrança de uma menina roliça e de tranças sempre à espreita de mais uma fatia).

 

4 ovos
1 iogurte natural (que é a nossa medida)
3 medidas de farinha com fermento
2 medidas de açúcar amarelo
1 medida de óleo vegetal

 

Um gato enfarinhado faz toda a diferença

 

Pré-aquecer o forno a 180ºC.
Retira-se o iogurte da sua embalagem e reserva-se – afinal a embalagem é a nossa preciosa medida e com ela cheia não se faz nada!
Separam-se as gemas das claras e reservam-se as claras.
Medem-se duas medidas de açúcar amarelo e juntam-se às gemas – bate-se bem, até se obter uma gemada forte. Adiciona-se o iogurte e bate-se mais uma vez. Lentamente, e sem parar de bater, junta-se uma medida de óleo.
Peneiram-se então 3 medidas de farinha – para que a farinha não fique presa à embalagem, costumo medó-la logo depois do açúcar, e reservo-a à parte (e só no final é que meço o óleo)  – e envolvem-se com a nossa massa.
Batem-as as claras com uma pitada de sal, até ficarem em castelo (o teste? pôr a taça de cabeça para baixo, e se não cair, estão em castelo).
Com cuidado, envolvem-se por fim as claras na massa.
Unta-se uma forma bonita com manteiga, e peneira-se com alguma farinha. Verte-se a massa, e leva-se ao forno até que o palito saia seco, mas com alguns grumos (assim o bolo não fica tão seco).

 

 

Depois de cozido, desenforma-se o bolo para um prato e deixa-se arrefecer, longe do alcance de algum gato enfarinhado que porventura tenham aí por casa.
Moí-se então alguma açúcar, com o qual vamos polvilhar o nosso bolo já arrefecido – queremos uma camada fina, que caía como a neve, suave.

 

 

Fossem todos os dias assim, simples, com uma fatia de bolo morna, macia e firme, que de derrete na boca. Com um chá, um chocolate quente ou um café. Ou simplesmente roubada de mansinho do prato, e comida a recordar outros tempos.

 

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5 thoughts on “O bolo de iogurte

  1. (Só para avisar, escreveste Victorian Sponhe Cake)
    Por acaso nunca gostei muito de pão de ló, até à penúltima Páscoa, e a coisa cresceu até engolfar uma rosca quase inteira juntamente com a minha irmã e avó depois de um trail. Páscoa perfeita 😉
    Acreditas que nunca tinha comido pão de ló mais húmido até há coisa de um mês? Curiosamente o primeiro que comi nessa altura era extremamente (demasiado) húmido. Ou melhor, líquido. Tenta adivinhar quem é que o fez 😉
    Mas a sério, ultimamente tenho feito pão de ló húmido todas as semanas e já vai nas 3 vezes, é mesmo bom e toda a gente gosta! (pelo menos na 2a e 3a vezes 😛 )
    Há uns anos tentei fazer pão de ló e tive a brilhante ideia de o bater À MÃO. Tenta adivinhar qual foi o pão de ló mais enqueijado de sempre 😉 (a minha mãe adorou. Sabe-se lá porquê. Pista: ela adora bolos enqueijados. Ao menos havia alguém para comer.)
    Resumindo, em 4 pães de ló um saiu enqueijado, outro líquido e os outros dois muito bem. Tenho de continuar a contrariar estas estatísticas 😉
    Tenho querido fazer chiffon, mas tem de ser em formas mais altas e não tenho nenhuma 🙁
    Só tu para usares "fofo" como um adjetivo pejorativo!
    "Acho que não há ninguém que nunca tenha feito ou não conheça o bolo de iogurte" -> Dependendo do sentido da disjunção, lamento desiludir-te mas: eu. Conheço, mas nunca fiz. Não acho grande piada 😛
    A sério, comer a massa assim? A massa de bolos crua não presta, sabe a cartão! Pensava que as pessoas só faziam isso com leite creme/creme de pasteleiro/etc, mas isso é muuuito estranho 😛
    Esses bolos assustam um bocado, porque é tudo relativa tirando os ovos. Sem eles, até se podia usar um pote de 1 litro, e com eles é TÃO INCRIVELMENTE CONFUSO! (expira, inspira, expira, inspira)
    Parece muito bom 😀

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