Cheesecake de Limão (e um texto assim bem grande e aborrecido)

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Hoje sinto-me inspirada, e como prometi há uns tempos um Cheesecake, achei que podia, por entre queijo creme e lemon curd, enfiar aqui umas quantas baboseiras de como me sinto, e a minha opinião em relação a cenas várias que fazem parte do meu dia.

Com a idade e o tempo clareiam-se as ideias que que se querem escrever. Por vezes não sei porque não descomplico e escrevo só as receitas. Acho que me habituei ao facto de poder escrever sem rédeas e dar largas ao que sinto numa folha de papel (não literalmente, estou a escrever num computador, ok?), e isso para mim sempre foi mais do que uma mania de uma wanna-be escritora pós-moderna que sonha escrever argumentos como os da Sofia Coppola; escrever é para mim algo libertador. Não quer isso dizer que o que escrevo seja bom, e sei que há dias em que, Jesus, nem sinopses nem posts de Facebook.

É chato querer-se escrever e as ideias pura e simplesmente não saírem; mais chato ainda é quando nos vem à cabeça umas quantas frases que cabiam tão bem num texto e não termos onde as escrever. Bem, parece que hoje, dia de folga depois de uns quantos dias a trabalhar uns bons pares de horas, as ideias não se desvaneceram, apenas se apuraram, o que me leva a estar neste momento, de manta e computador no colo, a tentar parecer super intelectual e a escrever um texto incrivelmente longo e maçador [A quem já leu estas quantas palavras sem saltar uma linha, pode passar já para a receita].

Poucas pessoas sabem que quando era miúda escrevia uns textos bem esquisitos, e achava-me uma alma tremendamente perturbada porque devia era estar a fazer outras coisas com o meu tempo. Ao invés, lia livros de malta a quem lhes cortavam a cabeça e tentava escrever algo parecido. A ideia parece incrivelmente estranha, mas é um bom exercício – porque a melhor maneira de aprender é imitar, e depois encontrar o nosso próprio estilo e fazer as coisas à nossa maneira.

Tanto foi assim na escrita, como foi na cozinha, nos blogs, e agora nos workshops – imita aquilo que gostas, e depois, faz como sabes, à tua maneira. Talvez por isso haja dias em que me sinto tão estúpida por ser tão semelhante àqueles que imitei/imito. Porque o que aos olhos dos outros parece uma mera reprodução e normalização de estilo, para mim é incrivelmente maçador, sem graça, e uma tremenda falta de personalidade. Porque aos meus olhos não é a Teresa, é outra pessoa, de aparência semelhante à minha, mas com um discurso de outra pessoa.

Aprendi desde cedo que fazermos o que os outros fazem, mas sem aquela dose autenticidade e de inspiração a coisa tende a correr mal e padece do mal da não legitimidade (como eu, do alto dos meus 10 anos, me inscrevi nas aulas de Hip-Hop porque era giro, mas sempre tive 2 pés esquerdos e a coordenação motora de uma batata; resultado: achava que era fixe, quando na verdade os meus colegas gozavam comigo). Ora pelas aulas de hip-hop e pelas calças de cintura descida (que lá está, eram grande moda, mas eu simplesmente não as podia usar), descobri que não sermos nós próprios acarreta uma dose grande de julgamento, seja dos outros, seja o nosso próprio.

De nada me serve fotografar tâmaras e trufas bonitas quando nem eu acredito que 2 delas apagam a vontade de comer 1 Twix – fico sem fome? Sim, mas frustrada porque o que eu queria mesmo era um chocolate carregado de caramelo e bolacha. E uma coisa é certa, vou-me sempre julgar porque não tive força de vontade para contrariar a opinião dos outros em relação aos chocolates. Mas isto não quer dizer que não goste das tais trufas – gosto, e gosto muito, mas se me apetece chocolate, bye bye trufas.

Por isso sim, as minhas mais recentes receitas não são as mais bonitas, não são as mais saudáveis ou mais adequadas para um estilo de vida que está tão na moda que deixou de ser verosímil – mas são as receitas com que me identifico. Açúcar, manteiga, caramelo, chocolate…

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E aqui estou eu, do alto das minhas 25 primaveras, a ser extremamente introspectiva e aborrecida, para finalmente publicar uma sobremesa que nunca me tinha atrevido a fazer, mas que me arrebatou o coração. Cheesecake, com um horror de queijo creme, muito fofo, e muito lemon curd.

Por isso aqui vai: Olá o meu nome é Teresa, e este é o Cheesecake de Limão; somos felizes à nossa maneira, a tentar encontrar um caminho só nosso, seja onde for.

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Cheesecake de Limão (receita adaptada daqui)

Base:

  • 150g de Bolacha Maria, triturada
  • 80g de manteiga derretida

Recheio:

  • 400g de Queijo Creme
  • 500g de Queijo Quark
  • 200g de Natas Ácidas
  • 100g de Açúcar em Pó
  • 5 c.sopa de Farinha de Trigo
  • 3 c.sopa de Lemon Curd
  • Sumo e Raspa de 1 limão
  • 3 ovos

NY Style Cheesecake 3 Pré-aquecer o forno a 200ºC

Forra-se o fundo de uma forma de fundo amovível com uma rodela de papel vegetal.

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Começa-se pela base: junta-se a bolachas triturada à manteiga derretida, e mistura-se bem até que se obtenha uma mistura semelhante a areia molhada. Pressiona-se a mistura na base da forma, e leva-se ao forno até que fique dourada. Reserva-se.

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Para o recheio, o ideal é usarem uma batedeira fixa: começa-se por bater, em velocidade baixa, o queijo creme, o queijo quark e o açúcar até que fique um creme bem fofo. Com a velocidade baixa, adiciona-se a farinha, o lemon curd, o sumo e a raspa de limão, até que o creme fique bem homogéneo. Aumenta-se a velocidade, e incorporam-se os ovos, um a um. Retira-se a taça da batedeira, e com uma espátula, envolvem-se as natas ácidas no preparado anterior.

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Pincelam-se as paredes da forma com manteiga, e verte-se o recheio sobre a base de bolacha já cozida.

O importante no Cheesecake é respeitar os tempos, por isso, tenham um relógio à mão. Numa primeira fase, o cheesecake vai ao forno a 200ºC por 10 minutos. Passado esse tempo, ao abanarem ligeiramente a forma, o centro estará bem líquido. É tempo então de reduzir a temperatura do forno para os 100ºC e deixar cozinhar por 30 minutos. Terminado este tempo, deliga-se o forno, e deixa-se arrefecer por completo, com a porta fechada. Poderão aparecer umas falhas no topo, mas não se preocupem, o Cheesecake está bem e delicioso, e pronto para o seu repouso.

Retira-se o Cheesecake do forno, cobre-se com película aderente, e leva-se ao frio por umas boas horas (o ideal é de um dia para o outro).

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Na altura de desenformar, recorram a uma faca para soltar as laterais, antes de abrir a forma (desta forma evitam que o Cheesecake se parta).

Falta só cobrir com uma camada abismal de Lemon Curd, e umas frutas bonitas.NY Style Cheesecake2

Uma sobremesa que requer tempo, paciência, mas que vale todo o esforço.

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11 thoughts on “Cheesecake de Limão (e um texto assim bem grande e aborrecido)

  1. Olá Teresa. Como eu te percebo 🙂 será que o mundo, ou a blogosfera, tem lugar para uma pessoa como eu, que num dia lhe apetece uma salada de kale e abóbora Hokkaido, e no outro um muito politicamente incorrecto arroz de cabidela? Também me está a custar encontrar a minha voz, mas acho que chego lá 🙂
    Beijinhos, Paula

    1. Paula, acho que somos almas gémeas – adoro ambos os pratos, e não condeno quem os adore também 🙂
      Encontrar o nosso registo é um desafio constante, mas acredito que com trabalho chegamos onde queremos. Um beijinho, Teresa

  2. Já tinha saudades dos teus textos e das tuas receitas! O cheesecake está com um ar bastante guloso, quase que dá vontade de arrancar do monitor!. Como é que está a correr a experiência no outro lado? A vida é uma aprendizagem, e esta é contínua. Sê tu própria e segue o teu caminho sem ligar a modas Há lugar para tudo, desde o mais saudável ao mais pecaminoso, mas sempre com peso, conta e medida. E tudo pode ser uma inspiração! Um grande beijinho, Sara Oliveira

    1. Olá Sara 🙂 Deste lado está tudo a correr bem, com muito trabalho e aprendizagem.
      Este cheesecake é para ser comido com conta, peso e medida, que há espaço para tudo, não podemos ser fundamentalistas. É um caminho necessário,e a percorrer. E claro, tudo pode ser inspiração! Um beijinho, Teresa

  3. Olá teres,
    Olha, li todo o teu texto… longo e tão maçudo… :)))
    Não consegui saltar linhas e ir directamente para a receita, pois já sabia que ia ficar a salivar e por iso, entretive-me a ler o texto longo, longo e maçudo, lol!!
    Mas olha, ainda bem que o li, pois depois deste texto longo e maçudo, ainda fiquei a gostar mais de ti e a admirar-te, pois não imaginas o quanto me identifico com o teu texto e o que esta moda do saudável, só porque é moda, me dá nos nervos!!
    Vivam a manteiga, o açúcar, o chocolate e o caramelo e o leite condensado, lol, e viva o equilíbrio, pois os doces e sobremesas nunca fizeram parte do dia a dia, precisamente por isso, por serem “treats” ou seja, algo para ser indulgente e consolar, ainda que seja só uma ou duas vezes por semana!!
    Olha, continua a fazer sobremesas assim: AUTÊNTICAS e continua tu também a ser autêntica, pois acho que as pessoas estão a perder completamente a autenticidade só para se enquadrarem numa moda que amanhã já passou…
    Um beijinho,
    Lia

    1. Olá Lia 🙂 Ainda bem que a extensão do texto não te demoveu. Acho sinceramente que falta muita autenticidade, cada vez mais vejo que todos cedem à pressão das modas e do hype – eu própria sofri isso, mas acho que me estou a esforçar por voltar ao meu caminho. Este Cheesecake é tudo de bom! E em breve vou adaptá-lo a outros sabores (quem sabe, chocolate e caramelo?) Um beijinho, Teresa

  4. ‘Fala’ à vontade, sempre que quiseres! Desde que apeteça 🙂
    Fiquei curiosa com esses textos esquisitos que escrevias 😛 Deve ser engraçado relê-los 😀
    Bem, este cheesecake está qualquer coisa de especial. Tem mesmo bom aspeto 😀

    1. E mil anos depois, a Ovelha Negra responde. Avelã, ando desaparecida destas lides mas morro todos os dias com o teu instagram. Só para que saibas 🙂

  5. E são estas as receitas que mais gosto e aquelas que gostaria de experimentar.
    Muitas vezes o que está na moda, não é o que é realmente genuíno! 🙂
    Este cheesecake parece-me óptimo (e “verdadeiro”!).
    Quem sabe outras receitas virão a acompanhar os teus textos “esquisitos”?!
    Ana

  6. Olá Teresa,

    Bem… que texto poderoso! Disseste coisas tão verdadeiras. Desde que descobri o teu blogue (e já o li desde o início) que é dos meus favoritos e acredita que não é só por causa das receitas, aqui encontro autenticidade e isso é cada vez mais raro nos dias de hoje. Por isso, quero que saibas, que o que quer que TU decidas fazer eu tenho a certeza que vai ser inspirador e magnífico (como as fotografias do cheesecake, ai ai!). Contínua a ser única, porque é a forma mais bonita de seres.

    Beijinhos,
    Mariana*

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